Na minha opinião, assim como Schopenhauer, a música é uma das únicas formas de livrar-mo-nos da dor que permeia a existência. Através da contemplação estética, é possível escapar por alguns momentos do ciclo perpétuo da perturbabilidade da vida. Entretanto, realizar esta subida até a pura contemplação não é tarefa fácil: há muita gente disposta a atrapalhar.
Esta noite acontecia mais uma edição do Música no Fórum, no campus da praia vermelha, na UFRJ. O cello e o piano já estavam em harmonia, mas minha mente parecia estar em outro lugar. Eu ainda estava pensando em como estava arrependido por ter vestido um casaco, na baixa qualidade das cadeiras e no número de cabeças que bloqueavam minha visão. Mas tudo bem, é preciso tempo para abstrair o mundo ao redor e mergulhar na atmosfera da música.
É verdade, mas isso seria mais fácil se o tal fotógrafo colaborasse!
Logo no início da performance, o fotógrafo contratado posicionou-se para registrar o belo momento. Uma, duas, três, seis fotos do violoncelista! ótimo, mas será que dava pra parar com esse flash e deixar a gente se concentrar? ok, mas ainda falta a pianista.
O fotógrafo se posiciona novamente, e com a paciência de um sniper espera o melhor momento… flash, flash!
algumas pessoas olham discretamente para trás, com cara de poucos amigos. O cínico está impassível. E finalmente termina seu trabalho.
Talvez agora a música possa ser sentida…
Ah, mas então eu me atrapalho novamente: a assistente que vira as páginas da partitura é o elemento desconcentrante da vez.
Pobrezinha, está somente fazendo o seu trabalho e auxiliando a pianista.
É, mas o conjunto de pensamentos que este seu “levanta-senta” evoca em mim, me impede de apreciar devidamente as variações de Beethoven.
Tudo bem, basta olhar para o violoncelista.
Hm.. como ele é jovem! certamente as moças do salão o acharam bonito. Por onde será que ele viajou? Soube que coleciona mais de 20 prêmios mundiais… excelente! mas, onde estamos mesmo? Já terminou o primeiro movimento? é melhor prestar mais atenção para não bater palmas na hora errada.
Tudo bem, agora estou conseguindo apagar meus pensamentos…
e de repente um festival de cof-cofs se torna evidente no salão. Seria uma epidemia ou só agora me dei conta?
A predominância de pessoas da terceira idade pode ser um fator decisivo para este tipo de incômodo. Um senhor e uma senhora do meu lado faziam um dueto de tosses. Ruídos repentinos que a todo momento cortavam o fluxo da música. Ok, tudo bem, vamos fingir que não está incomodando.
Mas uma mulher na outra fileira alisa um papel e posso escutar daqui o som do atrito dos dedos; não-sei-quem está passando a mão na calça e o esfrega-esfrega interfere na música. Além disso, há um zum-zum-zum atrás de mim, do pai que sussura com o filho de 6 anos de idade. Se estivéssemos ouvindo Flight of the Bumblebee, não reclamaria do zunido, mas este não é o caso!!
Quando olho para a direita, um homem barbudo está de olhos fechados, como se estivesse imune a todas aqueles anticlimaxes estéticos.
Tento seguir seu exemplo e fechei meus olhos… começo a sentir a sonata de Chopin… mas espera, que percursão é essa?
abro os olhos, e a percursão intrusa vem dos pés da moça à minha frente. Na empolgação, ela começou a batucar levemente o chão, mas a vibração foi forte o suficiente para invadir a atmosfera no interior dos meus olhos fechados. Para com isso!
que bom, ela parou… agora estou conseguindo alcançar a música! Que belo! Bravo!…
Eis que de repente a música para e a dupla se levanta. E está finda a apresentação.