desconecte-se
Um dia eu resolvi sumirNo dia em que comecei a fumar
Era uma tarde bonita de outono, daquelas em que o sol brilhava forte e inclinado mas não fazia calor, uma tarde em pleno solstício no fim de junho. Ainda estudava em uma universidade particular e pensava ao relento da janela do ônibus em direção àquele templo de medíocres.
Me levanto do banco e vejo um azul reluzente no chão do ônibus. Curioso, verifico que se trata de um maço de cigarros. Hollywood, azul e com isqueiro dentro. Parecia um convite.
De imediato, lembrei da minha trágica experiência… dias antes, em um daqueles sábados insuportáveis contigo no Garage, tratei de pegar o primeiro cigarro que vi pela frente, como uma expressão de revolta, rebeldia, ressentimento e remorso por ter aceito o seu convite e mais uma vez caído na desgraça de passar o resto da madrugada assistindo na minha memória imagens e cenas indeléveis de outra pessoa nos braços seus. Acendi o cigarro, revolto, e fumei como se fosse um homem, um macho! Mas a tosse me desmente, sou um fraco! Recorri à bebida, mas ela me traiu e pela boca saiu, horas depois, misturada com restos orgânicos semi-digeridos. No amanhecer, restou apenas a ressaca, o remorso, o ressentimento e outros sentimentos iniciados com re.
Alguma coisa fez com que eu continuasse com aquele maço na mão, agora ele era meu. Uma segunda tentativa após o fracasso em tornar-me um homem de verdade.
Já na faculdade, procurei algum daqueles lugares quietos e vazios que tanto adoro e me pus a observar a paisagem da maltratada zona norte, que nesta tarde de solstício estava mais bonita que de costume. Um vento agradável entrava pelas janelas. Não havia ninguém no prédio, apenas eu e meu maço.
Acendi um cigarro, o primeiro deles; observava a fumaça com cuidado… a luz que passava pelas frestas e refletia na fumaça proporcionava a esta um brilho intenso e vivaz, era uma experiência única! Fumava em cima da carteira, fazendo poses e mais poses, sozinho, e tentando descobrir o que era “tragar”, como se fazia afinal… sem sucesso. Acendia o quinto cigarro, contemplando o enfraquecer do sol poente e de meus pulmões, lamentando a tua ausência e imaginando se naquele momento eu havia me tornado um homem, um que fosse suficiente para você.
Aqueles dias
De fato não percebi quando aquele desânimo foi se aproximando, bem de mansinho, quase em rastejo, e pôs um fim em meu dia, com exagerada antecedência, onde o meu não-dia se resumiu a passar horas e horas ao relento, pensando e afastando todas aquelas idéias e memórias que perturbam como mosquitos em noites quentes. Foram horas potencialmente proveitosas, que se perderam no limbo das ‘coisas que eu poderia ter feito’, tão grande que daria um armário lotado de roupas sujas e fedorentas, caso pudesse migrar do virtual para o real. Um dia perdido em que a auto-estima fugiu de casa, o passado veio pedir pensão e o futuro escafedeu-se.
Idiossincrático
.
um ponto. sem extensão. sem dimensão.
sem espaço.
nada em volta. ninguém.